Saiba Como Clarice Lispector Contribuiu Para O Jornalista Cultural No Brasil

Admirada por sua trajetória no campo literário, Clarice Lispector será sempre apreciada pelo seu legado  como escritora, poetisa, pensadora, mas você sabia que ela também contribuiu para a disseminação do jornalismo cultural aqui no Brasil?

Poucos conhecem os trabalhos de Clarice Lispector como jornalista, mas ela sempre esteve presente na imprensa carioca não só como cronista ou entrevistadora, mas também como a redatora que se oculta sob pseudônimos para produzir colunas femininas em jornais cariocas no início e no final da década de 1950.

A verdade é que Clarice Lispector começou a colaborar na imprensa em 1942 e, ao longo de toda a vida, nunca se desvinculou totalmente do jornalismo. Trabalhou na Agência Nacional e nos jornais A Noite  e Diário da Noite. Foi colunista do Correio da Manhã e realizou diversas entrevistas para a revista “Manchete” . A autora foi cronista do Jornal do Brasil. Produzidos entre 1967 e 1973, esses textos estão reunidos no volume “A Descoberta do Mundo”.

A coletânea  “ A Descoberta do Mundo” reúne 468 crônicas publicadas originalmente na coluna semanal que a escritora mantinha no Jornal do Brasil, entre 1967 e 1973.

Foi organizada em ordem cronológica e, conforme sugere o título, aborda temas diversos, sob o impacto de quem observa o mundo pela primeira vez – a descoberta.

O leitor passeia por assuntos de circunstância, descobre esboços de contos e é levado a reflexões sobre o ato da escrita, que, no caso da autora, é da ordem da experiência vital. Lutando contra o que mais temia, tornar públicos aspectos de sua  intimidade, Lispector acabou aceitando o ofício de escrever para um jornal, o que a obrigava a um exercício permanente para alimentar a coluna a cada sete dias. A pressão de tempo acabou dando ao conjunto dos textos um teor autobiográfico, ao qual a autora não podia fugir, como indica em “Fernando Pessoa me ajudando”: “Estas coisas que ando escrevendo aqui não são, creio, propriamente crônicas, mas agora entendo os nossos melhores cronistas. Porque eles assinam, não conseguem escapar de se revelar. Até certo ponto nós os conhecemos intimamente. E quanto a mim, isto me desagrada. Na literatura de livros permaneço anônima e discreta. Nesta coluna estou de algum modo me dando a conhecer. Perco minha intimidade secreta? Mas que fazer? É que escrevo ao correr da máquina e, quando vejo, revelei certa parte minha. Acho que se escrever sobre o problema da superprodução do café no Brasil terminarei sendo pessoal. (…)”.

A obra traz momentos tocantes relacionados a memórias de infância em Recife, encontros e desencontros com amigos, relações familiares, livros e filmes de que gostava e, também, figuras que a marcaram, como a empregada Aninha. Mas em nenhum texto ela se limita ao factual um episódio doméstico, como o que ela relata em “Uma esperança”, ou o impacto da tecnologia no cotidiano (como a “computadora”) desaguam em reflexões existenciais ou em questionamento social. Por vezes, é direta em sua crítica, como se pronuncia sobre a educação: “Senhor ministro ou Presidente da República, impedir que jovens entrem em universidades é um crime.” Outro aspecto importante da obra clariceana revelada neste livro é o pendor para o humor, em diferentes matizes. A autora capta o flagrante tragicômico do cotidiano, recorre  à sutileza da ironia, à provocação do humor negro, ao demolidor humor judaico que se volta contra o próprio narrador. Como no texto “Antes era perfeito”, que se resume a uma frase: “Ter nascido me estragou a saúde”.

FONTE:

http://www.letras.ufrj.br/neolatinas/media/publicacoes/cadernos/a14n8/ANNONI__Diego_Dias_-_LITERATURA_E_JORNALISMO_EM_CLARICE_LISPECTOR_A_NO%C3%87%C3%83O_DE_FEMINILIDADE_NAS_P%C3%81GINAS_FEMININAS.pdf

https://claricelispectorims.com.br/livro-a-livro/a-descoberta-do-mundo/

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